“Epa, que papo estranho”, você deve estar pensando agora.

Calma, vai fazer sentido!

Como já falamos anteriormente por aqui, a raiva é categorizada como uma emoção – aquela reação química e física que nos acomete e, antes que tenhamos tempo de processar os fatos com o lado racional do nosso cérebro. De repente, nosso semblante muda, coração e respiração aceleram e por aí vai!

Eu sei, não é nada aprazível experimentar esse conjunto de reações, muito menos vê-las descambar em atitudes agressivas ou violentas. Porém, como já mencionamos por aqui, assim como as outras emoções, a raiva consta no catálogo da nossa programação neurológica.

Se conseguimos experimentar essa emoção, é porque existe uma razão para que sintamos raiva: na nossa evolução, ela foi necessária à nossa sobrevivência. Além disso, a raiva tem algumas utilidades básicas, como garantir que possamos nos defender, além de dar aquela injeção de energia para nos levantarmos e agirmos contra algo que identificamos como injusto, por exemplo.

Pois é, apesar de estar associada a comportamentos negativos e até condenáveis, a raiva pode nos fornecer aspectos positivos quando somos capazes de não permitir que a emoção nos domine e de fazer o contrário: dominá-la.

“Mas eu tenho temperamento explosivo, a raiva me sobe à cabeça”, você pode argumentar.

1. Conheça o por que dos comportamentos

Somos seres essencialmente diferentes, mas eu te garanto: não existem comportamentos impossíveis de modificar se você realmente desejar mudar e souber aplicar as ferramentas certas para isso. Longe de querer simplificar demais essa construção: como eu já disse, trata-se de uma jornada sinuosa, mas compensadora, em que os avanços vão sendo gradativamente percebidos.

Sim, você pode ter uma dificuldade de administrar a raiva. Porém, o domínio das suas emoções não virá com a ignorância sobre elas. Você precisa confrontar comportamentos indesejáveis que são engatilhados a partir desta emoção, para buscar neutralizá-los.

Uma tendência que preocupa em relação a essa “negação” da raiva, diz respeito às crianças.

Atire a primeira pedra a mãe que nunca entregou uma tela nas mãozinhas do seu filho para entretê-lo em nome de meia hora de paz!

Os efeitos dos eletrônicos nos primeiros anos de vida das crianças ainda são objeto de estudos mundo afora, mas a Universidade de Brigham Young, em Utah, Estados Unidos, já aponta constatações preocupantes em relação à gestão das emoções. Segundo a pesquisa, crianças que recebem aparelhos eletrônicos para regular as emoções, como parar de chorar, por exemplo, podem sofrer problemas futuros.

Ao utilizar as telas como distração, a longo prazo, estima-se que as reações das crianças se tornem mais agressivas, uma vez que não foram estimuladas a lidar propriamente com as emoções, sendo “distraídas” pelos artifícios tecnológicos.

2. Exemplo de uma história real

Vou te contar o que aconteceu comigo, que relata muito bem o que estamos falando aqui sobre telas e distrações. Eu tenho uma filha de 4 anos e não tem como negar que essa geração já nasceu quase com um celular ou um tablet na mão.

Desde muito cedo monitoramos e controlamos o tempo e a forma de uso das telas. Como ela é uma criança muito ativa, que gosta de parque e de brincar, não utiliza muito estes dispositivos, porém, certo dia decidimos passar um período em uma casa de praia e, chegando lá, havia uma única TV na sala. Para mim não foi nenhuma surpresa, até porque aproveitaríamos para curtir o local, que tinha um enorme jardim com grama, parque e acesso à praia.

Na primeira noite minha filha estava muito empolgada por estar ali, feliz da vida. Brincou muito e dizia o tempo todo “eu amei a casa nova”. Anoiteceu e, na hora em que eu estava organizando o quarto dela para dormir, ela me chama e diz: “mamãe, eu quero ir para minha casa, aqui não tem TV no quarto, como eu vou dormir?”. Nossa, aquilo me bateu de um jeito e eu pensei “minha filha está viciada na tela de uma TV, como eu não percebi isso antes?”.

Na hora, apenas conversei com ela e expliquei que tínhamos escolhas e que estar ali foi uma escolha. Não ter TV no quarto não seria um problema para dormir, a mamãe iria cantar, como sempre faço, e ficaria tudo bem. Ela entendeu e adormeceu.

Eu não esqueci. Comentei com meu marido e fiz uma busca mental de como isso poderia ter vindo a acontecer.

Durante o período em que ficamos nessa casa, ela ainda comentou algumas vezes sobre não ter a TV no quarto, porém, consegui fazer o exercício de ressignificar com ela e ficou tudo bem. Naquele momento eu refleti muito e precisei ter em mente que emoções indesejáveis, como a raiva ou a tristeza, fazem parte da natureza humana e ajudam a regular o nosso comportamento.

Toda emoção tem uma utilidade. O medo serve para nos proteger dos perigos, a tristeza serve para compreendermos o que nos faz mal e a raiva diz respeito à autopreservação e reação.

3. Conhecer e aceitar a emoção

Quando tentamos ocultar essas emoções em nós mesmos ou em nossos filhos, estamos pulando etapas necessárias. A forma como lidamos com as emoções (inclusive com a raiva) e experimentamos os sentimentos gerados através delas é essencial para moldarmos os nossos comportamentos e, também, construir a percepção de identidade sobre nós mesmos.

Permita que as emoções sejam sentidas.

Aceite-as e busque trabalhar o que vem a partir delas, não se culpe.

Fale sobre suas emoções o tempo todo, isso vai te fazer bem.

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Fontes:

GIMENEZ, Isabel; LIMA, Vanessa. Crianças que recebem aparelhos eletrônicos para regular a raiva têm mais dificuldade de lidar com os sentimentos, diz estudo. Crescer. Disponível em: <https://revistacrescer.globo.com/Educacao-Comportamento/noticia/2021/03/criancas-que-recebem-aparelhos-eletronicos-para-regular-raiva-tem-mais-dificuldade-de-lidar-com-os-sentimentos-diz-estudo.html>. Acesso em 19 mar 2021.

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